A agência norte-americana Bloomberg publicou em 8 de setembro de 2026 uma reportagem sobre um giro de imagem da mineração brasileira. O texto, assinado da redação da Bloomberg nos Estados Unidos, tem um ângulo direto: a corrida global por minerais críticos está ajudando o setor no Brasil a se distanciar do estigma deixado por dois dos rompimentos de barragens mais letais já registrados no mundo — Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019.
O que diz a reportagem
Segundo a Bloomberg, a virada acontece depois de o Congresso aprovar um marco legal há muito esperado para minerais críticos, pensado para atrair investimento novo. O veículo lembra que o Brasil tem as segundas maiores reservas de terras raras do planeta, atrás apenas da China, além de grandes depósitos de outros minerais usados em smartphones, veículos elétricos, turbinas e equipamentos de defesa.
O desafio apontado pela reportagem é transformar essa riqueza do subsolo em desenvolvimento concreto para a maior economia da América Latina, sem repetir os erros do passado. A Bloomberg trata o novo marco como um teste: ele dá ao governo mais poder para examinar operações de compra e venda de ativos minerais e, ao mesmo tempo, cria incentivos para que o processamento aconteça dentro do país.
A herança de Mariana e Brumadinho
Em novembro de 2015, a barragem de Fundão, da Samarco — controlada por Vale e BHP —, rompeu perto de Mariana (MG). Dezenove pessoas morreram e uma onda de rejeitos percorreu centenas de quilômetros do rio Doce, cortando o abastecimento de água de várias cidades. É considerado um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil.
Em janeiro de 2019, uma barragem da Vale na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), cedeu e matou mais de 270 pessoas — o rompimento mais mortal já ocorrido na mineração brasileira. Depois dele, o Congresso proibiu novas barragens do tipo “a montante” (o mesmo modelo das duas tragédias) e determinou a desativação das que ainda estavam em uso.
Em outubro de 2024, governo, Vale, BHP e Samarco fecharam um acordo de reparação avaliado em cerca de R$ 170 bilhões para a bacia do rio Doce. Ainda há litígios em curso no exterior movidos por atingidos.
O novo marco dos minerais críticos
O projeto citado pela Bloomberg foi aprovado pelo Senado no início de setembro e seguiu para sanção presidencial. Ele estabelece regras específicas para a exploração de terras raras e outros minerais estratégicos, oferece incentivo fiscal para quem processar o minério no Brasil, cria um fundo de apoio a projetos e aumenta o controle do Estado sobre negócios no setor.
A proposta é frear a lógica de exportar o minério bruto e importar o produto acabado. O Brasil já é líder mundial em nióbio, com cerca de 90% das reservas conhecidas, e aparece entre os primeiros colocados em grafita, níquel e lítio — mas quase toda a etapa de refino e ímãs permanentes ainda está fora do país.
A disputa entre Estados Unidos e China
O pano de fundo é geopolítico. Depois que a China impôs restrições à exportação de terras raras em resposta às tarifas de Donald Trump, Washington acelerou a busca por fornecedores alternativos — e o Brasil entrou no radar. Em abril de 2026, a norte-americana USA Rare Earth anunciou acordo de cerca de US$ 2,8 bilhões para comprar a Serra Verde, dona da única mina comercial de terras raras em operação no país, em Minaçu (GO). No início de 2026, a agência de financiamento ao desenvolvimento dos EUA (DFC) já havia fechado um pacote de crédito com a mesma empresa.
O que mostram as fontes brasileiras
Levantamento da Repórter Brasil divulgado em agosto de 2026 confirma o movimento descrito pela Bloomberg: mineradoras sediadas fora do país já respondem por 42% dos pedidos de pesquisa de terras raras no Brasil, com destaque para empresas da Austrália (cerca de 695 requerimentos), dos Estados Unidos (347) e do Canadá. A Agência Nacional de Mineração vem batendo recordes de solicitações, com a maior parte protocolada a partir de 2023.
Há convergência entre a leitura estrangeira e a brasileira quanto aos fatos: o marco foi aprovado, o interesse externo cresceu e a compra da Serra Verde por capital americano é real. A diferença está na ênfase. A Bloomberg destaca a recuperação de reputação e a oportunidade de investimento; parte da imprensa brasileira e de entidades ligadas a comunidades atingidas cobra que a abertura ao capital estrangeiro venha acompanhada de garantias de soberania, tributação adequada e controle ambiental — ainda mais depois de o Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2026, abrir caminho para mineração regulada dentro de terras indígenas.
Números do setor
A mineração brasileira faturou cerca de R$ 298,8 bilhões em 2025, alta de dois dígitos sobre 2024, e responde por boa fatia do saldo comercial do país. O minério de ferro segue como carro-chefe, mas as projeções de investimento para os próximos anos apontam crescimento puxado justamente pelos minerais críticos.
Perguntas e respostas
O novo marco elimina o risco de novas tragédias como Mariana e Brumadinho?
Não diretamente. As regras de segurança de barragens vieram de leis aprovadas após 2019, que proibiram o modelo “a montante”. O marco dos minerais críticos trata sobretudo de exploração, processamento, incentivo fiscal e controle de negócios.
Por que os Estados Unidos querem terras raras do Brasil?
Porque a China domina a produção e o refino global e passou a restringir exportações em meio à disputa comercial com Washington. O Brasil tem grandes reservas e é visto como fornecedor alternativo.
A Serra Verde já foi vendida?
O acordo com a USA Rare Earth foi anunciado em abril de 2026, no valor aproximado de US$ 2,8 bilhões. A empresa opera a mina Pela Ema, em Minaçu (GO).
Conclusão
Para a Bloomberg, o Brasil vive a chance de reposicionar sua mineração num momento em que o mundo precisa de minerais críticos. O que a reportagem estrangeira e as fontes brasileiras deixam claro, juntas, é que a parte difícil não é atrair o dinheiro — é garantir que ele deixe algo além do buraco.
Leia a reportagem original da Bloomberg. Veja também a cobertura da Associated Press sobre a aprovação do marco e o guia do investidor em minerais críticos do Ministério de Minas e Energia.
No blog: AP destaca o marco das terras raras aprovado pelo Senado e Bloomberg: Justiça trava mina de lítio da Sigma.


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