A agência norte-americana Associated Press e a Bloomberg, dos Estados Unidos, publicaram na quarta-feira, 9 de setembro de 2026, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto e uma medida provisória para segurar o preço dos combustíveis a menos de um mês do primeiro turno da eleição. O ângulo dos dois veículos é o mesmo: um pacote de alívio no bolso do consumidor em plena disputa eleitoral, no momento em que a guerra entre Estados Unidos e Irã empurra o petróleo para cima.

O que foi assinado

O decreto reduz o PIS/Cofins da gasolina em R$ 0,63 por litro e zera a tributação federal do etanol hidratado vendido direto na bomba, o equivalente a um corte de cerca de R$ 0,19 por litro. As novas alíquotas valem de 10 de setembro a 5 de outubro, um dia depois da votação de 4 de outubro. A AP informou que o benefício da gasolina dura 30 dias, indo até 9 de outubro; os atos publicados no Brasil fixam o fim em 5 de outubro. A diferença está na leitura do prazo, não no conteúdo da medida.

Em paralelo, uma medida provisória cria uma subvenção de R$ 1 por litro de diesel rodoviário, paga a produtores e importadores. Ela entra no lugar da subvenção atual, de R$ 1,12 por litro, que se encerra em 27 de setembro. O governo apresenta o pacote como continuidade das medidas adotadas desde março para conter o repasse da alta internacional do barril.

Por que agora: a guerra e o preço do barril

O gatilho é o petróleo. Segundo a AP, o Brent — referência internacional — superou os US$ 100 por barril na quarta-feira, pela primeira vez desde julho, depois de ataques a instalações e a navios petroleiros no Oriente Médio. O conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado em fevereiro de 2026, mantém sob tensão o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

Lula justificou a decisão em tom de campanha. Disse que o governo vai “aumentar um pouco o subsídio, com imposto cobrado mesmo da Petrobras”, para evitar que o custo da guerra “chegue no bolso do povo brasileiro”. Em outra fala citada pela imprensa estrangeira, afirmou que não vai permitir que “essa guerra irresponsável” atinja o consumidor.

Quanto custa aos cofres públicos

A conta é alta. Pela estimativa da Agência Brasil, a renúncia com gasolina e etanol é de cerca de R$ 2 bilhões por mês. Somada à subvenção do diesel, a despesa mensal chega a R$ 7 bilhões. Considerando a subvenção de R$ 1,12 do diesel que ainda corre até 27 de setembro, o impacto só neste mês seria de aproximadamente R$ 12,5 bilhões.

Entre março e agosto, o governo já havia gasto ou aberto mão de cerca de R$ 25 bilhões em medidas para conter o preço dos combustíveis. Com o novo pacote, o total de 2026 se aproxima de R$ 37,5 bilhões. É dinheiro que pressiona a meta fiscal no mesmo ano em que a equipe econômica tenta convencer o mercado de que as contas fecham — assunto que a imprensa estrangeira vem acompanhando de perto na cobertura do Orçamento de 2027.

O componente eleitoral

Tanto a AP quanto a Bloomberg tratam o timing como parte da história. O economista Armando Castelar Pinheiro, ouvido pela AP, avaliou que as medidas têm “um componente eleitoral significativo” e que os subsídios seriam menores se não fosse o calendário da eleição. A disputa de 4 de outubro coloca Lula contra o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, num cenário que pesquisas recentes mostram apertado — tema já abordado no blog na análise do ato de 7 de Setembro e da corrida eleitoral.

Há também um cálculo prático. Estabilizar o diesel é a forma de o governo tentar evitar uma paralisação de caminhoneiros como a de 2018, que travou o país por dias e desorganizou o abastecimento. Diesel caro também empurra o frete e, na sequência, o preço dos alimentos — um ponto sensível para qualquer incumbente em ano de voto.

Como isso se compara ao noticiário brasileiro

A informação estrangeira bate com o que publicaram Agência Brasil, Exame e veículos regionais: os valores do corte (R$ 0,63 na gasolina, etanol zerado, R$ 1 no diesel), a vigência a partir de 10 de setembro e a origem da despesa. A principal diferença de ênfase é o prazo final — 5 de outubro nos atos oficiais, “30 dias” na leitura da AP — e o grau de destaque para o fator eleitoral, que aparece mais forte nas matérias de fora.

Um dado que ajuda a dimensionar o esforço: análise do Itaú BBA citada pela AP indica que, mesmo antes do novo pacote, o diesel no Brasil estava cerca de 28% abaixo do preço internacional e a gasolina, 21% abaixo. Ou seja, a bomba brasileira já vinha represada em relação ao mercado externo. O blog vinha acompanhando essa pressão desde o salto do petróleo após o ataque dos EUA ao Irã e o recorde do diesel nos Estados Unidos.

Perguntas e respostas

O que muda no preço da bomba?

A ideia do governo é segurar o preço atual, não derrubá-lo. O corte de tributos e a subvenção compensam a alta internacional; sem eles, gasolina e diesel subiriam com o barril. O repasse efetivo depende de distribuidoras e postos.

Até quando vale?

O decreto da gasolina e do etanol tem efeito de 10 de setembro a 5 de outubro. A subvenção do diesel, criada por medida provisória, vale enquanto durar a instabilidade de oferta ligada aos conflitos, com R$ 1 por litro como valor inicial.

Quem paga a conta?

O Tesouro Nacional, via renúncia de arrecadação e subsídio direto. O governo diz que parte vem de tributos pagos pela própria Petrobras. A despesa mensal estimada é de R$ 7 bilhões e entra na pressão sobre a meta fiscal de 2026.

Conclusão

Para AP e Bloomberg, o pacote de combustíveis é ao mesmo tempo uma resposta ao choque do petróleo e uma peça da campanha de Lula. Os números do Brasil confirmam o desenho da medida; o que a imprensa de fora acrescenta é o enquadramento político e o alerta fiscal. O teste real virá nas semanas seguintes, quando se souber se o preço na bomba de fato ficou parado — e a que custo.

Fontes

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