A agência de notícias Reuters, sediada no Reino Unido, publicou em 3 de setembro de 2026 uma reportagem que recolocou o Brasil no radar da imprensa financeira internacional: o Banco Central brasileiro e o Banco Central Europeu (BCE) estudam interligar o Pix ao sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro. Segundo a agência, seria a primeira vez que o arranjo de pagamentos criado no Brasil cruzaria a fronteira do país.

O que a Reuters apurou

A reportagem se apoia em duas pessoas com conhecimento direto das conversas, que falaram sob condição de anonimato. Elas afirmam que times técnicos dos dois lados avaliam se a interconexão é viável e que um projeto-piloto poderia ser lançado em 2028, caso a iniciativa avance como planejado. O jornal Folha de S.Paulo havia noticiado as tratativas mais cedo no mesmo dia, e a Reuters confirmou e ampliou a informação com as próprias fontes.

Procurado pela Reuters, o BCE afirmou que conduz uma ongoing preliminary investigation (investigação preliminar em curso) sobre uma possível ligação entre a sua plataforma TIPS e o Pix. Em junho, o BCE já havia classificado o Pix como um corredor de moeda em exploração para o TIPS. O Banco Central do Brasil não quis comentar.

Como funcionaria a ligação Pix e TIPS

O TIPS (TARGET Instant Payment Settlement) é a plataforma do Eurosistema que liquida transferências em euros em segundos, 24 horas por dia. Uma interligação com o Pix permitiria, na prática, que um brasileiro pagasse uma loja europeia lendo um QR Code com o aplicativo do banco, usando a conta que já tem no Brasil, com a conversão cambial feita no meio do caminho. Relatos da imprensa apontam uma fase de exploração entre outubro de 2026 e março de 2027, quando os estudos de viabilidade ficariam mais detalhados e passariam a tratar de modelos de participação, liquidação e câmbio.

Por que isso incomoda os Estados Unidos

A Reuters lembra que o Pix virou ponto de atrito entre Brasília e Washington. O governo Trump citou o sistema entre as práticas desleais usadas para justificar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros anunciada em julho, no mesmo período em que outras frentes comerciais também se acirraram. O incômodo tem dois motivos: o Pix corrói a fatia de bandeiras como Visa e Mastercard e alimenta a conversa, em economias emergentes, sobre reduzir a dependência do dólar. A tensão tarifária também pressiona juros e câmbio no Brasil, o que dá peso extra a qualquer movimento do Banco Central no tema.

O que dizem as fontes brasileiras

As reportagens nacionais, a partir da Folha, convergem com a Reuters nos pontos centrais: a negociação está em fase preliminar, mas já entrou no cronograma de trabalho do BCE. O Banco Central do Brasil afirmou em agosto que avaliava conexões do Pix com sistemas de pagamento estrangeiros e informou já ter assinado acordos de troca de informação com 65 contrapartes no exterior. As divergências ficam nos detalhes operacionais — número de equipes envolvidas e o calendário exato aparecem com pequenas variações entre os veículos, e nada foi oficializado pelas duas autoridades monetárias.

Como a imprensa internacional tratou o tema

Os ângulos variam conforme o veículo. A Reuters e outras agências destacaram o ineditismo de uma expansão do Pix para fora do Brasil e o atrito com os Estados Unidos. Publicações especializadas em tecnologia financeira focaram no lado técnico da conexão com o TIPS e no calendário de fases. Já a cobertura brasileira enfatizou o efeito prático para o consumidor: a possibilidade de pagar na Europa sem cartão internacional. Nenhuma das versões, porém, trata o projeto como decidido — todas usam termos como estudo, preliminar e se avançar.

Contexto: o tamanho do Pix

Lançado no fim de 2020, o Pix oferece transferências gratuitas entre pessoas e custo menor para o lojista, contornando boa parte da cadeia tradicional de cartões. Desde então, tornou-se o principal meio de pagamento do país, trouxe dezenas de milhões de pessoas para o sistema financeiro e reduziu a participação de débito e crédito. O Banco do Brasil já opera um recurso de Pix na Argentina, e o próprio BC vem preparando o terreno para pagamentos recorrentes e para o uso internacional. A eventual ponte com a Europa seria o passo mais ambicioso até agora — e ajuda a explicar por que o assunto rendeu manchetes de agências e jornais estrangeiros.

Riscos e o que ainda falta decidir

Uma interligação entre dois sistemas de pagamento instantâneo não é trivial. É preciso definir quem assume o risco cambial, como funcionam as regras de governança e de prevenção à lavagem de dinheiro, e de que forma bancos dos dois lados se conectam. Há ainda o componente político: a pressão dos Estados Unidos sobre o Pix pode influenciar o ritmo das conversas. Por isso, mesmo as fontes ouvidas pela Reuters falam em piloto apenas para 2028, e sem garantia de que o projeto sairá do papel.

Perguntas e respostas

Já dá para usar o Pix na Europa?

Não. Trata-se de um estudo em fase preliminar. Segundo as fontes da Reuters, um piloto só sairia em 2028, e apenas se as conversas avançarem.

O que mudaria para o turista brasileiro?

Em tese, seria possível pagar em euros lendo um QR Code com o app do banco, usando a conta no Brasil, sem depender de cartão internacional, com a conversão de moeda feita de forma automática.

Isso acaba com o IOF ou com o cartão de viagem?

Não há qualquer definição nesse sentido. A discussão trata de infraestrutura de pagamento entre bancos centrais, não de tributos nem de regras de câmbio para pessoas físicas.

Conclusão

A reportagem da Reuters mostra o Brasil na posição incomum de exportar tecnologia de pagamento para a Europa. Ainda é um estudo, cercado de incertezas técnicas e políticas. Mas o simples fato de o BCE colocar o Pix no seu cronograma diz muito sobre o alcance que o sistema ganhou em cinco anos.

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