A Medtronic, maior fabricante de dispositivos médicos do mundo, divulgou nesta terça-feira (1º) lucro e receita acima do esperado no primeiro trimestre do ano fiscal de 2027 e elevou a projeção anual. A receita somou US$ 9,76 bilhões, alta de 13,7% na comparação anual, puxada pela divisão cardiovascular, que cresceu 18,9%. O lucro líquido subiu 41,4%, para US$ 1,47 bilhão. As ações avançaram cerca de 5% em Nova York após o balanço.
Os números do primeiro trimestre fiscal
O ano fiscal da Medtronic se encerra no fim de abril, então o primeiro trimestre fiscal de 2027 cobre os meses de maio a julho de 2026. Nesse período, o lucro por ação ajustado (não GAAP) foi de US$ 1,45, contra expectativa média de analistas de US$ 1,39 compilada pela Investing.com. Pelo critério contábil GAAP, o lucro por ação foi de US$ 1,14, alta de 40,7%. A receita de US$ 9,76 bilhões superou a estimativa de US$ 9,55 bilhões e ficou cerca de 2 pontos percentuais acima do meio da própria projeção da empresa.
A margem operacional ajustada ficou em 23,7%, expansão de 0,1 ponto percentual na comparação anual — um dos indicadores que investidores acompanham de perto, porque a recuperação de margem é parte central da tese de virada da companhia nos últimos anos. O lucro líquido GAAP saltou mais que a receita porque a base de comparação do ano anterior trazia despesas não recorrentes e efeitos fiscais que pressionaram o resultado de 2026.
- Receita: US$ 9,76 bilhões (+13,7%, mesmo número em base orgânica)
- Lucro líquido (GAAP): US$ 1,47 bilhão (+41,4%)
- Lucro por ação GAAP: US$ 1,14 (+40,7%)
- Lucro por ação ajustado: US$ 1,45 (+15,1%), ante US$ 1,39 esperado
- Margem operacional ajustada: 23,7% (+0,1 ponto)
- Dividendos pagos no trimestre: US$ 921 milhões
- Recompra de ações: US$ 267 milhões
A Medtronic é uma das companhias que compõem o grupo de “aristocratas de dividendos” do mercado americano — empresas que aumentaram o dividendo por ação todos os anos por, no mínimo, 25 anos consecutivos. Os US$ 921 milhões distribuídos no trimestre e a recompra de US$ 267 milhões em ações mostram que o caixa continua sendo devolvido ao acionista em ritmo relevante, mesmo durante o processo de reorganização do portfólio.
Cardiovascular puxa o resultado
A divisão de Cardiovascular, maior segmento da empresa, cresceu 18,9% em base orgânica. Dentro dela, a área de Cardiac Rhythm Management (marca-passos e desfibriladores) avançou cerca de 15%, e a de Cardiac Ablation Solutions disparou 88%. Segundo a Investing.com e a Seeking Alpha, as terapias de eletrofisiologia como um todo cresceram 29,1% no trimestre.
O motor desse salto é a ablação por campo pulsado, conhecida pela sigla em inglês PFA. A técnica usa pulsos elétricos em vez de calor ou frio para tratar a fibrilação atrial, a arritmia cardíaca mais comum, e tende a ser mais rápida e com menor risco de lesionar tecidos vizinhos, como o esôfago e o nervo frênico. A Medtronic vende os sistemas PulseSelect e Affera/Sphere-9 e disputa o mercado com a Farapulse, da Boston Scientific, e com a Johnson & Johnson.
O mercado global de ablação cardíaca é estimado por bancos de investimento em mais de US$ 8 bilhões ao ano e cresce em ritmo de dois dígitos, com a PFA substituindo rapidamente as tecnologias antigas de radiofrequência e criobalão. Foi essa migração de tecnologia, mais do que o crescimento do número de procedimentos, que explicou o número de 88% no trimestre.
Diabetes volta a crescer
A divisão de Diabetes, por anos o ponto fraco da Medtronic, cresceu 14,9% em base orgânica, para US$ 843 milhões. O avanço é puxado pelo sistema de bomba de insulina MiniMed 780G e pelo sensor de glicose Simplera. Vale lembrar que, em 2025, a empresa anunciou o plano de separar a unidade de Diabetes em uma companhia independente — e agora ela volta ao terreno de dois dígitos justamente às vésperas dessa cisão.
O histórico dessa área ajuda a entender o alívio do mercado: entre 2021 e 2023, a divisão de Diabetes ficou sob restrição da agência reguladora americana (FDA) após uma carta de advertência, o que travou lançamentos nos Estados Unidos e fez a Medtronic perder espaço para concorrentes como Insulet e Tandem. A retomada do crescimento é sinal de que a companhia recuperou o terreno regulatório antes de destacar o negócio.
Neuroscience e Medical Surgical
A divisão de Neuroscience cresceu 9,3%, com as áreas de tecnologias cranianas e espinhais e de tecnologias habilitadoras (navegação cirúrgica e robótica) avançando na casa dos 20%. A divisão de Medical Surgical subiu 10,2%. Nesse segmento está o robô cirúrgico Hugo, que a Medtronic vem submetendo à aprovação regulatória nos Estados Unidos para cirurgia de tecidos moles — um mercado hoje dominado pelo sistema da Intuitive Surgical, dona do da Vinci.
O Hugo já é vendido em dezenas de países fora dos EUA, incluindo mercados da América Latina, mas é a entrada no mercado americano — o maior e mais lucrativo do mundo em cirurgia robótica — que os investidores esperam para reprecificar o potencial do produto.
| Divisão | Crescimento orgânico | Destaque |
|---|---|---|
| Cardiovascular | +18,9% | Ablação cardíaca (PFA) +88% |
| Diabetes | +14,9% | Receita de US$ 843 mi |
| Medical Surgical | +10,2% | Robô Hugo em avaliação nos EUA |
| Neuroscience | +9,3% | Tecnologias habilitadoras +20% |
O detalhe por trás do número: uma semana a mais
Um ponto importante para não superinterpretar o resultado: por um ajuste de calendário fiscal, este primeiro trimestre teve 14 semanas em vez de 13. Segundo a apuração da Investing.com, essa semana extra adicionou cerca de US$ 570 milhões à receita — o equivalente a vários pontos do crescimento reportado. Excluindo esse efeito, o crescimento orgânico ainda seria de dois dígitos, mas mais próximo da faixa de 7% a 8% que a empresa projeta para o ano cheio.
Esse tipo de ajuste acontece porque o calendário fiscal da Medtronic tem 52 semanas na maioria dos anos e, periodicamente, precisa de um ano de 53 semanas para reancorar as datas — e a semana extra costuma cair no primeiro trimestre. É um efeito puramente contábil, sem relação com demanda. No mesmo período, a Medtronic concluiu as aquisições da Scientia Vascular, focada em dispositivos para procedimentos neurovasculares, e da SPR Therapeutics, de neuromodulação para dor.
Nova projeção para o ano fiscal de 2027
Com o começo forte, a Medtronic elevou a projeção de crescimento orgânico de receita no ano fiscal de 2027 para uma faixa de 7,25% a 7,75%, ante 6,75% a 7,25% antes. O guidance de lucro por ação ajustado subiu para US$ 5,94 a US$ 6,00, contra US$ 5,90 a US$ 6,00 anteriormente. O consenso de mercado estava em torno de US$ 5,95.
| Indicador | Guidance anterior | Novo guidance |
|---|---|---|
| Crescimento orgânico de receita | 6,75% a 7,25% | 7,25% a 7,75% |
| Lucro por ação ajustado | US$ 5,90 a US$ 6,00 | US$ 5,94 a US$ 6,00 |
“Estamos começando o ano fiscal de 2027 de forma forte. A força do nosso portfólio e do nosso pipeline nos dá confiança nas oportunidades à frente”, afirmou Geoff Martha, presidente do conselho e CEO, no comunicado oficial da companhia.
Além do desempenho operacional, um dólar mais fraco em 2026 tende a ajudar as receitas reportadas da Medtronic, já que a maior parte das vendas vem de fora dos Estados Unidos e é convertida de outras moedas. O movimento inverso — um dólar forte — foi um vento contrário recorrente para a empresa nos anos anteriores.
Background: a reviravolta da Medtronic
Nos anos anteriores, a Medtronic penou com problemas de execução, recalls de produtos, atrasos regulatórios e crescimento abaixo dos concorrentes diretos, como Abbott, Boston Scientific e Stryker. Em 2021, a empresa encerrou a venda da bomba cardíaca HVAD após problemas de segurança; a divisão de Diabetes ficou anos sob restrição da FDA; e as ações ficaram praticamente de lado enquanto o setor subia.
Sob pressão de investidores, a companhia cortou custos, enxugou o portfólio — vendeu ou separou linhas menos estratégicas — e concentrou apostas em três frentes de maior crescimento: a ablação por campo pulsado, a robótica cirúrgica com o Hugo e o monitoramento contínuo de glicose. A decisão de separar a divisão de Diabetes, anunciada em 2025, e a recuperação gradual de margem fazem parte desse mesmo movimento.
O balanço desta terça-feira é lido pelo mercado como mais um sinal de que a virada está ganhando tração — embora um único trimestre, ainda mais com uma semana extra, não feche a conta sozinho. Os próximos dois ou três balanços, já sem o efeito de calendário, dirão se o novo patamar de crescimento se sustenta.
Possíveis desdobramentos
O que o mercado deve observar a partir daqui:
- Revisões de estimativas: analistas tendem a ajustar projeções para cima, com foco na continuidade do crescimento em PFA e na eventual aprovação do robô Hugo nos Estados Unidos.
- Tarifas: a política comercial dos EUA em 2026 recolocou na mesa o risco de tarifas sobre importação de dispositivos e componentes médicos; a Medtronic tem produção na Ásia e no México e já sinalizou monitorar o tema.
- Concorrência: a disputa em ablação por campo pulsado deve se intensificar com Boston Scientific e Johnson & Johnson investindo pesado na mesma tecnologia.
- Cisão de Diabetes: cronograma, estrutura e execução da separação da unidade serão acompanhados de perto pelo mercado.
- Próximo catalisador: o resultado do segundo trimestre fiscal, previsto para novembro, será o primeiro sem a semana extra de calendário.
O que isso significa para o investidor
Resumo rápido:
- Uma empresa grande e defensiva do setor de saúde voltou a crescer dois dígitos e elevou o guidance — leitura positiva para o segmento de dispositivos médicos como um todo.
- Parte do salto do trimestre veio de uma semana extra de calendário (~US$ 570 milhões); ajuste isso ao comparar com trimestres anteriores.
- Isto é informação, não recomendação: a Medtronic é uma fabricante madura, paga dividendos há décadas e cresce em ritmo moderado.
Perfil conservador: o caso da Medtronic ilustra por que o setor de saúde costuma entrar em carteiras defensivas — a demanda por marca-passos, bombas de insulina e cirurgias varia pouco com o ciclo econômico. Para quem investe do Brasil, a exposição costuma vir por meio de BDRs negociados na B3 ou de fundos e ETFs internacionais de saúde, e não pela compra direta de ações individuais no exterior.
Perfil moderado: um balanço assim reforça a tese de setor, mas não justifica concentração em uma única empresa. Vale observar se a aceleração se mantém nos próximos trimestres, sem o efeito da semana extra, antes de aumentar posição. A comparação com pares como Abbott e Stryker ajuda a separar o que é desempenho da empresa do que é maré do setor.
Perfil arrojado: quem busca crescimento pode preferir os nomes mais expostos às tecnologias em alta — ablação por campo pulsado e robótica cirúrgica —, mas isso implica maior volatilidade e dependência de aprovações regulatórias e de disputa competitiva. Diversificação e horizonte longo seguem valendo.
Em todos os casos: nenhuma decisão de investimento deve se apoiar em um único balanço trimestral, e rentabilidade passada não garante resultado futuro. Este texto tem caráter jornalístico e informativo, não constitui recomendação de compra ou venda.

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