A agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) publicou na terça-feira, 8 de setembro de 2026, uma reportagem assinada pelo repórter Mauricio Savarese com o título, em tradução livre, “Suprema Corte do Brasil afasta chefe da Polícia Federal e aprofunda crise no tribunal”. O texto foi distribuído para dezenas de veículos no exterior — entre eles ABC News, The Washington Times, CP24 e The Japan Times — e coloca a disputa interna do Supremo Tribunal Federal como o principal fator de instabilidade política do Brasil a menos de um mês do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

O que a AP contou ao leitor estrangeiro

Na leitura da AP, o ministro André Mendonça, indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, nome escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e também do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada da Costa. A justificativa, segundo a agência, é a de que a PF teria produzido seis relatórios ilegais sobre as atividades do ministro até o fim de agosto.

A reportagem enquadra a decisão como mais um capítulo do embate entre Mendonça e o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos que levaram Bolsonaro à condenação por tentativa de golpe em 2025. A AP lembra que Moraes está sob pressão de políticos, da imprensa e de juristas para deixar o cargo desde que Mendonça tornou públicos documentos que sugeririam contato do magistrado com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e hoje foragido. Moraes nega qualquer contato com o financista.

A agência também registra que Mendonça preside no Supremo as investigações sobre o colapso do Banco Master — que atinge figuras da oposição — e sobre a fraude nos benefícios do INSS, apuração que menciona um familiar de Lula. E anota um dado de reação institucional: a cúpula da Polícia Federal afirmou que as acusações “have no ground” (não têm fundamento) e criticou o que chamou de narrativas influenciadas por interesses eleitorais e políticos.

O que dizem as fontes brasileiras

A Agência Brasil, agência pública oficial, confirma o núcleo dos fatos e acrescenta detalhes. Mendonça agiu de ofício, ou seja, por iniciativa própria, sem ter sido provocado pelas partes, em decisão monocrática (individual). Ele apontou “monitoramento ilícito” que teria durado mais de 30 dias e citado, além dele, a relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias. O ministro tratou como “apócrifo” o relatório divulgado por Moraes que sugeria direcionamento das apurações do caso Banco Master contra adversários políticos, alegando que o documento não tem timbre nem assinatura da PF.

Reportagens de veículos brasileiros apontam ainda que a Segunda Turma do STF referendou o afastamento no mesmo dia e que Mendonça proibiu a Polícia Federal de produzir ou compartilhar relatórios de inteligência voltados a avaliar a atuação de magistrados, de membros da advocacia pública ou da própria polícia judiciária. Onze diretores da PF teriam colocado os cargos à disposição em sinal de apoio a Andrei Rodrigues, que recebeu um telefonema de Lula após a decisão.

Convergências e divergências

AP e fontes brasileiras convergem no essencial: houve afastamento de dois nomes da cúpula da PF, por ordem individual de Mendonça, com base em seis relatórios produzidos em agosto. A imprensa estrangeira, porém, tende a resumir o episódio como “Suprema Corte afasta chefe da PF”, enquanto o noticiário local frisa que a decisão foi monocrática e depois referendada por uma das turmas, e não uma deliberação do plenário do tribunal. Essa distinção é central para o passo seguinte da crise.

O governo já anunciou que vai recorrer. A Advocacia-Geral da União prepara contestação no STF sob o argumento de que a nomeação e a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal são competência privativa do presidente da República, prevista em lei específica de 1996, e de que uma decisão individual não poderia alcançar esse ato. Enquanto isso, o presidente do STF, Edson Fachin, abriu prazo de cinco dias para que Mendonça e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, respondam a acusações de abuso de autoridade apresentadas por Moraes.

Por que isso importa para o eleitor

A crise chega em um momento eleitoral delicado. A imprensa estrangeira — caso da Bloomberg, que tratou o tema com foco na corrida presidencial — associa a turbulência no Judiciário a um ganho de fôlego da direita. Pesquisas recentes mostram empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, e o ato da oposição na Avenida Paulista, no feriado de 7 de setembro, reuniu dezenas de milhares de pessoas com forte tom de crítica a Moraes e ao STF.

Para o leitor brasileiro, o ponto prático é o seguinte: uma disputa entre dois ministros do Supremo passou a envolver diretamente a Polícia Federal, uma instituição de Estado, e o Palácio do Planalto, às vésperas da eleição. O desfecho vai depender de como o plenário do STF tratará os recursos e as acusações cruzadas — e de se as decisões serão cumpridas sem novo conflito entre os Poderes.

Perguntas frequentes

Quem foi afastado da Polícia Federal?

O diretor-geral, Andrei Passos Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa. O afastamento é preventivo, por decisão do ministro André Mendonça, e foi referendado pela Segunda Turma do STF.

Qual é a base da decisão?

Mendonça afirma que a PF produziu ao menos seis relatórios de inteligência, entre 3 e 31 de agosto, monitorando suas atividades e contatos. Ele classificou a conduta como monitoramento ilícito de um ministro da Suprema Corte.

O que o governo pode fazer?

A AGU vai recorrer ao próprio STF, alegando que a exoneração do diretor-geral da PF é competência do presidente da República e que uma decisão individual não poderia produzir esse efeito. Cabe ao tribunal decidir.

Conclusão

A cobertura da AP mostra como o exterior lê o momento brasileiro: menos como um caso jurídico isolado e mais como um teste de estabilidade institucional em ano eleitoral. Os próximos dias, com os recursos e os prazos abertos por Fachin, devem definir se a crise fica contida no Supremo ou se avança para um choque aberto entre o tribunal, a Polícia Federal e o governo.

Fontes e leitura complementar

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