A Zscaler (ZS), uma das maiores empresas de cibersegurança em nuvem do mundo, divulgou nesta quinta-feira (3) o resultado do quarto trimestre do ano fiscal de 2026, encerrado em 31 de julho, e superou as estimativas de Wall Street em receita e lucro. A companhia reportou receita de US$ 898,2 milhões, alta de 25% sobre um ano antes, e lucro ajustado de US$ 1,19 por ação, contra os US$ 1,09 esperados pelo consenso. A ação subiu cerca de 4% no after-hours, empurrada pela leitura de que a corrida por inteligência artificial virou o principal motor de demanda por ferramentas de segurança.

Os números do trimestre

O resultado consolidou um ano de crescimento acelerado. No trimestre, a receita anual recorrente (ARR) — métrica que a empresa considera o melhor termômetro do negócio — chegou a US$ 3,77 bilhões, também 25% acima de um ano antes. O novo ARR líquido adicionado no período somou US$ 246 milhões.

Na linha final, a Zscaler ainda reporta prejuízo pelo critério contábil GAAP: foram US$ 3,4 milhões negativos no trimestre, ou US$ 0,02 por ação — um buraco pequeno, puxado sobretudo por despesas com remuneração em ações. Pelo critério ajustado (não-GAAP), o lucro líquido foi de US$ 198,2 milhões, ante US$ 146,7 milhões um ano antes.

Indicador4º tri fiscal 2026Comparação
ReceitaUS$ 898,2 mi+25% a/a; acima dos US$ 877 mi esperados
ARRUS$ 3,77 bi+25% a/a
Novo ARR líquidoUS$ 246 mi+24% a/a
Lucro ajustado por açãoUS$ 1,19acima dos US$ 1,09 esperados
Prejuízo GAAPUS$ 3,4 miUS$ (0,02) por ação
Margem operacional ajustada24,3%recorde (+2,2 p.p. a/a)
Fluxo de caixa livre (ano fiscal)US$ 779 mi23% da receita

No acumulado do ano fiscal de 2026, a receita da Zscaler foi de US$ 3,35 bilhões, alta de 25%, com fluxo de caixa das operações de US$ 1,13 bilhão — equivalente a 34% da receita. A margem operacional ajustada anual ficou em 23%.

A base de grandes clientes também cresceu: a empresa terminou o trimestre com 785 clientes que geram mais de US$ 1 milhão de ARR (alta de 18% em um ano) e 4.182 clientes acima de US$ 100 mil de ARR (alta de 20%). A penetração entre as companhias da lista Fortune 500 subiu de 45% para 50%.

IA vira “o maior vento a favor que já vimos”

O tom da teleconferência foi dominado por um argumento: a adoção de inteligência artificial nas empresas — e, principalmente, a chegada dos chamados agentes de IA, softwares que executam tarefas de forma autônoma — está abrindo uma nova frente de gastos com segurança. Segundo a companhia, as reservas (bookings) de soluções de “Segurança para IA” cresceram mais de 50% na comparação com o trimestre anterior, e o funil de negócios dessa linha avançou 75% no mesmo intervalo.

“A IA está rapidamente se tornando o maior vento a favor que já vimos, impulsionando a demanda por nossas soluções de Zero Trust Everywhere, segurança de dados e Segurança para IA”, afirmou o fundador e presidente-executivo, Jay Chaudhry, segundo a transcrição divulgada pela Investing.com.

No comunicado oficial, Chaudhry detalhou a tese: “Ao conectar usuários, cargas de trabalho, filiais e agora agentes diretamente às aplicações de que precisam, sem colocá-los na rede, estamos posicionados de forma única para ajudar as empresas a combater as ameaças criadas pela IA agêntica e a implantar agentes e modelos de IA com segurança.”

O diretor financeiro, Kevin Rubin, resumiu a execução comercial: “O quarto trimestre marcou o maior trimestre de produtividade que já vimos.” Por região, a receita das Américas cresceu cerca de 30%, a da Ásia-Pacífico-Japão avançou 23% e a da Europa, Oriente Médio e África subiu 17%.

Red Canary e a qualidade do crescimento

Parte do avanço veio de compra. A aquisição da Red Canary, empresa de detecção e resposta a incidentes, contribuiu com US$ 141 milhões de ARR no trimestre. Excluindo esse efeito, o ARR orgânico cresceu 20% (para US$ 3,63 bilhões) e o novo ARR líquido orgânico avançou 17%.

A distância entre os 25% reportados e os 20% orgânicos ajuda a explicar por que a reação do mercado foi de alta moderada, e não de euforia. A própria empresa avisou que a Red Canary não deve adicionar novo ARR líquido no ano fiscal de 2027 — ou seja, a partir daqui o crescimento precisa vir do negócio principal.

Outros números reforçam a solidez operacional: a receita diferida chegou a US$ 2,93 bilhões (+19%), e o programa Z-Flex, que permite ao cliente ampliar o uso da plataforma sem abrir novo processo de compra, gerou mais de US$ 1,7 bilhão em valor total de contratos no ano fiscal.

O que o guidance de 2027 diz — e o que esconde

A projeção para o próximo ano fiscal foi o ponto mais ambivalente do balanço. A Zscaler espera:

  • Receita anual de US$ 3,908 bi a US$ 3,938 bi, crescimento de 16,6% a 17,5% — desaceleração clara frente aos 25% de 2026;
  • ARR de US$ 4,40 bi a US$ 4,43 bi, alta de 16,6% a 17,4%;
  • Lucro ajustado por ação de US$ 4,86 a US$ 4,90 no ano;
  • Primeiro trimestre fiscal: receita de US$ 935 mi a US$ 939 mi (cerca de +19%) e lucro ajustado de US$ 1,15 a US$ 1,16 por ação;
  • Margem de fluxo de caixa livre entre 23,0% e 23,5%.

A companhia tem histórico de começar o ano com projeções conservadoras e revisá-las para cima ao longo dos trimestres — foi o que aconteceu em 2026. Ainda assim, o piso de 16,6% de crescimento é o mais baixo já guiado pela empresa e sinaliza que a base de comparação ficou grande. A Zscaler também alertou para investimentos de capital elevados em 2027, por causa da alta de custos de memória, armazenamento e processadores — o mesmo aperto que vem pressionando toda a cadeia de infraestrutura de IA.

Desdobramentos: o que esperar

No curto prazo, a atenção dos analistas se divide em três frentes:

  • A conversa da “Segurança para IA” em receita. Hoje as reservas dessa linha somam cerca de US$ 100 milhões acumulados em um ano — relevante como sinal, pequeno diante de um ARR de US$ 3,77 bilhões. O mercado quer ver essa fatia virar percentual de dois dígitos da receita.
  • Transições na liderança comercial. A empresa reconheceu que mudanças recentes na equipe de vendas podem levar tempo para estabilizar algumas regiões.
  • Margem e caixa sob pressão de custos. Com o capex subindo, a conversão de lucro em caixa — um dos pontos fortes da tese — será monitorada de perto.

O consenso de casas como as que acompanham o papel seguia positivo antes do balanço, e a reação inicial de alta de 4% sugere que a tese de longo prazo — segurança como gasto não discricionário, reforçada pela IA — continua de pé. Mas com a ação negociando a múltiplos altos, cada trimestre passa a ser um teste de execução.

Background: a onda de resultados da cibersegurança

O balanço da Zscaler entra numa sequência de resultados fortes do setor. Em 1º de setembro, a Palo Alto Networks reportou receita de US$ 3,41 bilhões no quarto trimestre fiscal (+34%), com o ARR de nova geração cruzando os US$ 9 bilhões — ainda que a ação tenha caído no dia por causa de um guidance de desaceleração. CrowdStrike e SentinelOne também vêm entregando crescimento de dois dígitos, sustentados pelo mesmo pano de fundo: ataques mais frequentes e sofisticados, exigências regulatórias e, agora, a superfície de risco criada por modelos e agentes de IA dentro das empresas.

A Zscaler nasceu vendendo uma ideia simples: em vez de proteger o perímetro da rede corporativa, conectar cada usuário diretamente à aplicação de que ele precisa, verificando identidade e contexto a cada acesso — o conceito de “confiança zero” (zero trust). Com o trabalho híbrido e a migração para a nuvem, esse modelo virou padrão de mercado. O próximo capítulo, segundo a empresa, é aplicar a mesma lógica aos agentes de IA, que passam a acessar sistemas e dados corporativos como se fossem funcionários.

O que isso significa para o investidor

  • O resultado foi bom, mas a reação foi contida (alta de ~4%) porque o crescimento orgânico (20%) é menor que o número cheio (25%) e o guidance de 2027 aponta desaceleração para ~17%.
  • A “Segurança para IA” ainda é promessa, não número: cresce rápido, mas representa fração pequena da receita.
  • É um papel de crescimento com múltiplo alto: exige tolerância a volatilidade e horizonte longo.

Para o investidor conservador, a lição é mais temática do que direta: cibersegurança é um dos poucos itens de orçamento de tecnologia que as empresas cortam por último, e isso dá previsibilidade de receita — mas ações individuais desse grupo negociam a prêmios que embutem anos de execução perfeita. Exposição via fundos amplos de tecnologia ou índices costuma ser o caminho de menor risco.

Para o perfil moderado, a Zscaler ilustra um dilema comum: a empresa entrega, o setor tem vento a favor, mas o preço já reflete boa parte disso. Faz sentido acompanhar a evolução da linha de IA nos próximos dois ou três trimestres antes de decidir, em vez de comprar na notícia.

Para o investidor arrojado, que aceita a volatilidade de ações de crescimento, a tese central — a de que cada agente de IA implantado é um novo “usuário” a ser protegido — segue intacta e pode se acelerar. O risco é de execução (transições de vendas, pressão de custos) e de múltiplo: numa rotação do mercado para fora de tecnologia, esses papéis caem primeiro e mais forte.

No Brasil, o balanço tem efeito principalmente indireto, via Nasdaq e via BDRs de empresas de tecnologia. O pano de fundo local segue dominado pela reunião do Copom nos dias 15 e 16 de setembro — na mesma data da decisão do Federal Reserve —, com a Selic em 14% e o dólar próximo de R$ 5,05.

Este conteúdo é jornalístico e informativo. Não é recomendação de compra ou venda de ativos.

Fontes

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