O diretor do Federal Reserve Christopher Waller disse nesta quinta-feira (3) que apoiará manter os juros dos Estados Unidos na reunião de 15 e 16 de setembro se a inflação das próximas duas semanas confirmar a desaceleração dos preços. A sinalização derrubou a aposta de alta de juros de cerca de 63% para 50% em um único dia, puxou o rendimento do Treasury de 10 anos para 4,75% e fez o Dow Jones subir 635 pontos — o melhor pregão de Wall Street desde 4 de agosto.
O que Waller disse — e por que pegou o mercado de surpresa
Em discurso e entrevistas divulgados nesta quinta, Waller afirmou que está disposto a votar pela manutenção da taxa básica americana, hoje na faixa de 3,50% a 3,75%, desde que o índice de preços ao consumidor (CPI) de agosto, que sai em 11 de setembro, mostre “progresso contínuo” em direção à meta de 2%.
“Se houver progresso contínuo rumo à nossa meta de 2%, então estou disposto a apoiar a manutenção da taxa de política monetária no nível atual”, disse Waller. “Se a inflação vier quente, eu consideraria uma alta de juros.”
Christopher Waller, diretor do Federal Reserve, em 3 de setembro de 2026
O diretor foi além e usou uma metáfora musical para defender a paciência: “Vou parafrasear John Lennon aqui: dê uma chance à desinflação. Podemos esperar uma reunião. Subir 25 pontos-base agora, em uma única reunião, não vai trazer o CPI para 2%”, afirmou, segundo a CNBC.
A fala importa porque contraria a direção que o próprio Fed vinha dando ao mercado. Nas semanas anteriores, o presidente do banco central, Kevin Warsh, e o diretor Michael Barr sinalizaram que juros mais altos poderiam ser necessários se a inflação não cedesse com clareza — uma retórica rara para o Fed, historicamente mais inclinado a cortar do que a subir. Barr, em declaração de 1º de setembro, lembrou que a inflação americana está acima da meta “há mais de cinco anos”.
A reação dos mercados: alívio generalizado
O efeito foi imediato e amplo. Nas bolsas de Nova York, no fechamento de quinta:
- Dow Jones: +635 pontos (+1,2%), aos 53.699 pontos — maior alta diária desde 4 de agosto.
- S&P 500: +1,1%, na casa dos 7.750 pontos.
- Nasdaq Composite: +1,6%, perto de 26.570 pontos.
- Treasury de 10 anos: recuou cerca de 5 pontos-base, para 4,75%, depois de fechar quarta acima de 4,79% — a máxima desde novembro de 2023.
- Ouro à vista: +2,3%, a US$ 4.490 a onça, recuperando parte da queda das semanas anteriores.
No câmbio internacional, o iene japonês subiu 2% ante o dólar, a 155,36, estendendo um rali de quase 3% em dois dias — puxado também por sinais de aperto monetário do Banco do Japão. A libra e o euro acompanharam a queda dos rendimentos dos títulos.
Entre as ações, os destaques de alta foram Snowflake (+20% após balanço e projeções acima do esperado), Robinhood (elevação de recomendação por analistas) e Nvidia (compra da plataforma de IA Hugging Face). Na contramão, a Broadcom caiu cerca de 4%, apesar de superar as estimativas de lucro, por causa de um guidance de inteligência artificial visto como fraco.
Como mudaram as apostas em 24 horas
| Indicador | 2 de setembro | 3 de setembro (após Waller) |
|---|---|---|
| Prob. de alta de juros — CME FedWatch | 63,2% | 50,4% a 54,6% |
| Prob. de alta — Polymarket | — | 38% |
| Treasury 10 anos | 4,79% | 4,75% |
| Dólar/iene | ~158 | 155,36 |
| Dow Jones (variação do dia) | — | +635 pts (+1,2%) |
Vale o alerta: as casas divergem no número exato. A CME FedWatch, referência do mercado de futuros de juros, mostrava a probabilidade de alta caindo para algo entre 50,4% e 54,6% após a fala — uma queda de aproximadamente 12 pontos percentuais em um dia. O mercado de apostas Polymarket foi mais longe e precificou apenas 38% de chance de alta. Em todos os casos, o movimento foi na mesma direção: para longe do aperto.
O racha dentro do Federal Reserve
O que a fala de Waller escancarou é uma divisão real no comitê de política monetária (FOMC) às vésperas da decisão de 16 de setembro. De um lado, a ala mais dura:
- Kevin Warsh (presidente): em Jackson Hole, no fim de agosto, sinalizou que a inflação persistente pode exigir juros mais altos. Foi essa fala que empurrou as apostas de alta para a faixa de 60% a 66%.
- Michael Barr (diretor): em 1º de setembro, reforçou que a inflação está “alta demais” há mais de cinco anos e tratou o próximo dado de preços como o teste decisivo.
Do outro lado, a leitura mais paciente:
- Christopher Waller (diretor): vê a desinflação desde fevereiro como “encorajadora” e avalia que a política monetária “restringe apenas ligeiramente” a demanda agregada. Também citou uma mudança de metodologia do Departamento de Comércio, no cálculo de taxas de serviços financeiros, que pode reduzir a inflação PCE reportada em algumas décimas de ponto.
- John Williams (Fed de Nova York): adotou o tom de “esperar para ver” nas semanas anteriores.
O núcleo do índice PCE, medida de inflação preferida do Fed, roda em torno de 3,3% ao ano — bem acima da meta de 2%. É por isso que a decisão está genuinamente em aberto: nenhum dos lados tem folga para errar.
Como o Fed chegou perto de subir juros
Para entender o tamanho da guinada, é preciso lembrar o caminho até aqui. Ao longo de 2025, o Fed cortou juros e depois pausou. A ideia de elevar a taxa só voltou ao debate em 2026, empurrada por uma combinação de fatores:
- Inflação de energia: a escalada entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz manteve o petróleo Brent acima de US$ 90 e, em alguns pregões, acima de US$ 95, pressionando combustíveis e fretes.
- Tarifas comerciais: o Livro Bege do Fed, divulgado em 2 de setembro, apontou repasse de custos de tarifas a preços em “vários distritos”.
- Oferta recorde de dívida: a venda global sincronizada de títulos soberanos levou o juro do Treasury de 10 anos à máxima desde novembro de 2023, o do JGB japonês de 10 anos a 3% pela primeira vez desde 1996 e o Bund alemão à máxima desde 2011.
- Mercado de trabalho ainda resiliente: apesar do relatório ADP fraco de agosto (+38 mil vagas no setor privado), o Fed evitava declarar vitória sobre a inflação com o desemprego ainda baixo.
Nesse cenário, uma alta de 0,25 ponto em setembro deixou de ser hipótese remota e virou aposta majoritária. A fala de Waller foi o primeiro contrapeso público relevante vindo de dentro do comitê.
Historicamente, o Fed raramente volta a apertar depois de um ciclo de cortes sem antes deixar claro que errou a mão — foi assim em episódios pontuais das décadas de 1980 e 1990. Uma alta agora significaria admitir que a política monetária afrouxou cedo demais em 2025, num momento em que a inflação de serviços e o repasse de tarifas ainda não haviam sido totalmente digeridos. É uma decisão de custo reputacional alto, e isso ajuda a explicar por que o comitê está dividido em vez de simplesmente seguir o roteiro mais duro.
Os dados que decidem tudo
Waller foi explícito: seu voto será “fortemente influenciado” por um único número — o CPI de agosto. O calendário até a decisão é curto e denso:
- 5 de setembro (sexta): relatório oficial de emprego (payroll) do BLS, com expectativa de criação de cerca de 56 mil vagas em agosto.
- 10 de setembro: índice de preços ao produtor (PPI) de agosto.
- 11 de setembro: CPI de agosto — o dado que Waller colocou como divisor de águas.
- 15 e 16 de setembro: reunião do FOMC, com anúncio da decisão no dia 16.
Um CPI benigno praticamente sela a manutenção. Um CPI “quente” reabre o caminho para a alta e devolve a pressão sobre juros longos, dólar e bolsas. Até lá, a palavra de ordem é volatilidade.
Análise: os três cenários para 16 de setembro
Com o dado ainda por vir, o mercado trabalha com três desdobramentos:
- Manutenção (cenário hoje majoritário): CPI de agosto confirma desinflação, Waller e a ala paciente prevalecem, o Fed fica parado. Efeito provável: queda adicional dos juros dos Treasuries, dólar mais fraco no mundo, fôlego para bolsas e para ativos de países emergentes.
- Alta de 0,25 ponto: CPI surpreende para cima, Warsh e Barr ganham a discussão. Efeito provável: repique dos juros longos, dólar forte, correção nas bolsas — especialmente em ações de tecnologia e de crescimento, mais sensíveis a juros.
- Manutenção com viés duro (“hawkish hold”): o Fed segura a taxa, mas sinaliza no comunicado que uma alta segue na mesa. Efeito provável: alívio limitado, com o mercado mantendo prêmio de risco nos títulos.
Analistas ouvidos pela imprensa financeira ressaltam que o “se” da frase de Waller carrega muito peso: a manutenção não está contratada, e a diferença entre um Fed parado e um Fed subindo juros é grande demais para o investidor ignorar nas próximas duas semanas.
O ângulo Brasil: Copom e Fed no mesmo dia
A reunião do Copom acontece em 15 e 16 de setembro — exatamente nas mesmas datas do FOMC. É uma sobreposição rara e que concentra risco. O Banco Central brasileiro cortou a Selic em 0,25 ponto em agosto, para 14% ao ano, e o mercado, no geral, projeta manutenção agora.
A lógica do diferencial de juros é direta: se o Fed sobe a taxa americana enquanto o Brasil corta a Selic, a diferença entre os dois juros encolhe, o que tende a tirar atratividade do real e pressionar o câmbio. Um Fed parado, ao contrário, dá mais espaço para o Copom seguir seu próprio caminho sem custo cambial imediato.
No pregão desta quinta, o dólar comercial emendou a terceira queda seguida frente ao real, na casa de R$ 5,05, e o Ibovespa operava perto dos 186 mil pontos, ainda sustentado pelo chamado “trade eleitoral” doméstico. Em paralelo, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial das distribuidoras de títulos Trustee e Banvox — episódio pontual, sem relação com a política monetária.
Há ainda o canal do carry trade: com juro alto no Brasil e juro estável nos EUA, o investidor estrangeiro que se financia em dólar para aplicar em renda fixa brasileira ganha mais quando o diferencial se mantém largo. Um Fed em alta comprime esse ganho e pode acelerar a saída de recursos. No mercado local de títulos públicos, os juros longos brasileiros costumam acompanhar em parte o movimento dos Treasuries — de modo que uma virada da curva americana também mexe na marcação a mercado do Tesouro Direto prefixado e das NTN-B mais longas.
O que isso significa para o investidor
Em três linhas:
- Um Fed parado é alívio para bolsas, ouro e moedas emergentes; uma alta seria o oposto, com repique de juros e dólar.
- Para o Brasil, o Fed sem subir juros dá mais espaço para o Copom continuar o ciclo de cortes da Selic sem pressionar o câmbio.
- Nada está decidido: o CPI de 11 de setembro pode virar o jogo. Espere volatilidade alta até a reunião do dia 16.
Conectando a diferentes perfis:
- Conservador: a Selic a 14% ainda remunera bem o pós-fixado (Tesouro Selic, CDBs de liquidez diária). Antes de dados-chave de inflação nos dois países, prefixado longo continua sendo aposta direcional — não posição de conforto.
- Moderado: títulos atrelados ao IPCA (Tesouro IPCA+/NTN-B) pagam juro real elevado, na casa de 7% ao ano, mas sofrem marcação a mercado enquanto os juros longos oscilam. Faz sentido para quem carrega até o vencimento, não para quem precisa do dinheiro no curto prazo.
- Arrojado: bolsa brasileira e ações de tecnologia americanas tendem a se beneficiar de um Fed parado, mas a exposição hoje embute um evento binário — a decisão de 16 de setembro. Dimensionar posição e evitar alavancagem às vésperas do CPI é o básico.
Para acompanhar o pano de fundo dos dados de atividade nos EUA, veja também nossa cobertura do ISM de Serviços de agosto e o que ele mudou nas apostas de juros.
Fontes
- CNBC — Fed Governor Waller indicates he will support holding rates steady at September meeting
- Bloomberg — Fed’s Waller Says September Rate Decision Hinges on August CPI
- Reuters / Yahoo Finance — Dow rises 635 points on Fed rate-hold hopes
- The Motley Fool — Stock Market Midday, Sept. 3: Stocks Rally as Treasury Yields Fall
- The Hill — Global bond yields fall after Fed governor says he may back holding rates steady
- Money Times — Diretor do Fed sinaliza possível manutenção da taxa de juros em setembro
- 24/7 Wall St. — The Fed’s Waller Says He’d Hold Rates Steady — But His “If” Is Doing a Lot of Heavy Lifting

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