A Dell Technologies disparou até 10% nesta quarta-feira (2) após reportar receita recorde de US$ 47 bilhões no segundo trimestre do ano fiscal de 2027, alta de 58% em um ano. A companhia fechou o período com US$ 60,9 bilhões em pedidos de servidores de inteligência artificial, um backlog recorde de US$ 95 bilhões e elevou em US$ 25 bilhões a projeção de receita para o ano fiscal.

O balanço foi divulgado após o fechamento de terça-feira (1º) e derrubou de vez a principal dúvida que rondava a ação: a de que a explosão de vendas de servidores de IA estaria destruindo as margens da empresa. Aconteceu o contrário.

Os números do trimestre

A receita de US$ 46,97 bilhões superou a estimativa média de analistas, de cerca de US$ 44,9 bilhões, e ficou acima de todas as projeções individuais compiladas pelo mercado. O lucro por ação ajustado (não-GAAP) foi de US$ 7,04, ante expectativa de US$ 4,91 — uma diferença de mais de US$ 2. No critério contábil GAAP, o lucro por ação foi de US$ 6,34, alta de 273% em um ano.

A geração de caixa acompanhou o ritmo: o fluxo de caixa livre ajustado somou US$ 8,1 bilhões no trimestre, alta de 224%. A Dell devolveu US$ 4,3 bilhões a acionistas via recompra de ações e dividendos, também um recorde para um único trimestre.

Indicador2º tri fiscal 2027Variação a/a
Receita totalUS$ 47,0 bi+58%
Lucro por ação (ajustado)US$ 7,04+203%
Lucro por ação (GAAP)US$ 6,34+273%
Receita ISG (infraestrutura)US$ 31,8 bi+89%
Receita CSG (PCs)US$ 15,0 bi+20%
Fluxo de caixa livre ajustadoUS$ 8,1 bi+224%
Devolução a acionistasUS$ 4,3 birecorde

IA vira o motor: US$ 95 bilhões em carteira

O centro do resultado está no braço de infraestrutura (Infrastructure Solutions Group, ou ISG), que faturou US$ 31,8 bilhões, alta de 89% e décimo trimestre seguido de crescimento de dois dígitos. Dentro dele:

  • Servidores otimizados para IA: US$ 16,4 bilhões de receita reconhecida, o dobro de um ano antes.
  • Servidores tradicionais e redes: US$ 10,5 bilhões, alta de 122%.
  • Armazenamento: US$ 4,85 bilhões, alta de 26%.
  • Pedidos de servidores de IA no trimestre: US$ 60,9 bilhões — recorde.
  • Backlog (carteira a entregar) de IA: US$ 95 bilhões, cerca de oito vezes o valor de um ano atrás.

“Isso fica mais claro no nosso negócio de servidores de IA, onde registramos um recorde de US$ 60,9 bilhões em pedidos, reconhecemos um recorde de US$ 16,4 bilhões em receita e encerramos o trimestre com um recorde de US$ 95 bilhões em backlog”, disse Jeff Clarke, vice-presidente do conselho e diretor de operações da Dell, na teleconferência com analistas.

A base de clientes de IA passou de 6.500, distribuída entre grandes empresas, governos (“clientes soberanos”) e provedores de nuvem em hiperescala. Mas o que muda na prática para a rentabilidade da companhia?

A prova de fogo das margens

Nos meses anteriores ao balanço, a tese pessimista sobre a Dell era simples: vender servidores recheados de GPUs da Nvidia é um negócio de baixa margem, porque a maior parte do valor do equipamento vai para a fornecedora dos chips. Alguns analistas projetavam margem operacional de infraestrutura perto de 11% e falavam em um “acerto de contas” com a rentabilidade.

O número real veio bem acima. A margem operacional do ISG foi de 15,0%, contra 8,8% um ano antes. O lucro operacional do segmento subiu 225%, para US$ 4,8 bilhões.

Destaque: a margem operacional do braço de infraestrutura saltou de 8,8% para 15,0% em um ano — acima do que analistas temiam. Foi a resposta direta à crítica de que servidores de IA seriam apenas um negócio de “repassar caixa” para a Nvidia.

A explicação da Dell: ganho de escala, mix melhor entre serviços, armazenamento e redes vendidos junto com os servidores, e disciplina de preço em contratos grandes. Servidores tradicionais e storage, de margem mais alta, cresceram forte e dicluíram o efeito dos equipamentos de IA.

Os PCs também surpreenderam

A divisão de computadores pessoais (Client Solutions Group, ou CSG), que vinha estagnada há anos, faturou US$ 15,0 bilhões, alta de 20%. O segmento corporativo puxou o resultado: US$ 13,2 bilhões, alta de 22% e o melhor desempenho em mais de quatro anos, no oitavo trimestre seguido de crescimento. O consumo doméstico avançou 7%, para US$ 1,8 bilhão. O lucro operacional da divisão subiu 42%, para US$ 1,1 bilhão.

Parte do movimento vem da troca de máquinas antigas por PCs corporativos com o fim do suporte ao Windows 10 e da chegada dos “PCs com IA”, que carregam processadores capazes de rodar modelos localmente. A Dell também citou reposição de estoques por clientes diante do risco de tarifas de importação nos EUA.

Guidance: a aposta de triplicar a IA

A Dell elevou a projeção de receita do ano fiscal de 2027 em US$ 25 bilhões, para cerca de US$ 192 bilhões — crescimento de aproximadamente 70%. A projeção de lucro por ação ajustado subiu para US$ 25,50, ante consenso anterior na casa dos US$ 18 e projeção prévia da própria empresa perto de US$ 17,90.

  • Receita FY2027: ~US$ 192 bilhões
  • Lucro por ação ajustado FY2027: US$ 25,50
  • Receita de servidores de IA no ano: ~US$ 74 bilhões, cerca de três vezes o ano anterior (a estimativa de seis meses atrás era apenas dobrar)
  • 3º trimestre fiscal: receita ~US$ 49 bilhões e lucro ajustado ~US$ 6,50 por ação

“O momento que temos visto continua, e estamos elevando nossas expectativas em todas as linhas de negócio”, afirmou o diretor financeiro David Kennedy.

O que o mercado espera a seguir

A reação inicial foi quase toda positiva. Pelo menos uma casa elevou a recomendação de “manter” para “comprar”, argumentando que a combinação de margem melhor e visibilidade de backlog supera as preocupações com valuation e conversão de caixa. A ação subiu cerca de 8% no after-hours de terça e chegou a ganhar dois dígitos na quarta; acumula alta superior a 200% em 2026.

Concorrentes acompanharam: a Hewlett Packard Enterprise subiu cerca de 4% no dia (e mais de 100% no ano) e a Super Micro teve leve alta. O balanço reforça a leitura de que a demanda por infraestrutura de IA segue firme e que o gargalo é oferta, não procura.

Valuation e o que dizem os analistas

Mesmo após a disparada de 2026, parte dos analistas argumenta que a ação não está cara para os padrões de tecnologia: negociava perto de 15 a 17 vezes o lucro projetado antes do balanço, abaixo da média do setor. Os que elevaram recomendação citam o backlog como uma “reserva” de receita já contratada. Os mais céticos lembram que projeções de IA já foram revisadas para cima várias vezes — e que revisões para baixo, se vierem, seriam igualmente rápidas.

Os riscos que ficam

  • Concentração de clientes: boa parte do backlog vem de poucos grandes compradores (hiperescala e projetos soberanos). Cancelamento ou adiamento de um contrato move o número.
  • Dependência da Nvidia: a disponibilidade de GPUs e a próxima geração de chips ditam o ritmo de entrega do backlog.
  • Financiamento dos clientes: parte da demanda depende de rodadas bilionárias de dívida e capital levantadas por empresas de IA e data centers. Juros altos nos EUA encarecem esse funil.
  • Debate da “bolha de IA”: se o mercado passar a questionar o retorno dos investimentos em IA, ações ligadas a capex de data center são as primeiras a corrigir.

O balanço saiu, aliás, em um dia tenso para as bolsas americanas: Wall Street interrompeu três pregões de queda, o petróleo Brent rondava US$ 95 por causa da tensão entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz, o juro do Treasury de 10 anos estava perto de 4,8% (máxima desde 2023) e a aposta de alta de juros do Fed em 16 de setembro seguia ao redor de 66%. O presidente do Fed de Nova York, John Williams, disse à CNBC que ainda é preciso “esperar para ver” antes de decidir por mais aperto.

A corrida global por servidores de IA

O resultado da Dell é um termômetro de um movimento maior. Provedores de nuvem como Microsoft, Amazon, Google e Meta elevaram seus orçamentos de investimento para cifras somadas acima de US$ 400 bilhões em 2026, quase tudo direcionado a data centers e chips de IA. Projetos como o Stargate, da OpenAI com SoftBank e Oracle, e uma fila de IPOs de empresas de energia e infraestrutura para data centers (a SB Energy pediu registro para captar até US$ 7 bilhões na semana passada) mostram a escala de capital em jogo.

A Dell, a Super Micro e a HPE são as principais montadoras que transformam os chips da Nvidia em servidores prontos para operar. Enquanto a demanda supera a oferta de GPUs, essas empresas conseguem repassar custo e proteger margem. O risco simétrico é conhecido: se o ciclo de investimento desacelerar, a queda de pedidos chega a elas antes de chegar à Nvidia.

Como a Dell chegou até aqui

A trajetória recente ajuda a entender o tamanho do salto. Em 2013, Michael Dell fechou o capital da empresa em uma operação de US$ 24 bilhões, com o fundo Silver Lake, para reestruturá-la longe da pressão trimestral. Em 2016, comprou a EMC por US$ 67 bilhões, a maior aquisição da história da tecnologia até então, e trouxe o controle da VMware. A companhia voltou à bolsa em 2018 e separou a VMware em 2021 para reduzir dívida.

Durante anos, a Dell foi vista como uma “empresa de PC” madura, de crescimento baixo e múltiplo comprimido. A virada começou em 2023-2024, quando a onda de IA generativa disparou a demanda por servidores com GPUs. A partir daí, a cada trimestre a empresa elevou o número de pedidos e de backlog de IA — de poucos bilhões para dezenas de bilhões. O resultado deste trimestre é a confirmação mais forte dessa mudança de patamar: a infraestrutura já responde por dois terços da receita, e a rentabilidade parou de cair.

O que isso significa para o investidor

Resumo rápido antes do detalhe:

  • A Dell entregou crescimento e margem melhor no mesmo trimestre — a tese negativa das margens de IA perdeu força.
  • O backlog de US$ 95 bilhões dá visibilidade de receita, mas concentra risco em poucos grandes clientes e na oferta de chips.
  • É uma ação de ciclo de IA: sobe muito quando o mercado confia no capex de data center e cai rápido quando esse consenso é questionado.

Para o investidor conservador: ações individuais de tecnologia americana em pleno rali de IA, negociadas via BDR na B3 (a Dell tem o BDR D1EL34), têm volatilidade alta e risco cambial. Quem prioriza previsibilidade encontra retorno real elevado hoje em renda fixa doméstica, com a Selic em 14% — caminho detalhado no nosso guia de Tesouro Direto.

Para o investidor moderado: a exposição ao tema de IA tende a fazer mais sentido de forma diluída, via ETFs de índices americanos de tecnologia (que carregam Dell, Nvidia, HPE e pares juntos), do que apostando em um único nome depois de uma alta de 200% no ano. O dólar caiu cerca de 6% ante o real em 2026, o que reduz o retorno em reais de aplicações lá fora.

Para o investidor arrojado: quem acompanha casos individuais deve olhar os próximos gatilhos — a conversão do backlog em receita nos 3º e 4º trimestres, a evolução da margem do ISG e qualquer sinal de desaceleração de pedidos. Nesse perfil, posição pequena e stop definido importam mais do que a convicção na história de longo prazo, justamente pela sensibilidade da ação ao humor do mercado com IA.

Nada aqui é recomendação de compra ou venda. É informação para a sua própria análise.

Fontes

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